Academia

“Dissequem o poema!”
Eles ordenaram
“Abram a veia página superior
Quebrem as lombas dos livros
Rompam as costuras
Façam o que preciso for
Esta Academia
Vai curar o mundo
Do mal da poesia!”

Obedientes, os alunos estudaram
Revisaram cada teorema
Aplicaram hipóteses em alfabetos
Correram testes clínicos
Nas células das folhas
A cabeça abriram
De mais de mil leitores
E analisaram reações dos escritores
Quanto imersos em criações

Entre eles, os pupilos
Estava eu, um dos mais novos
Um aspirante a cirurgião
De literatura e linguagem
Ávido, queria prover meu talento
E não foi desatento
Que iniciei minhas pesquisas
Pelo ramo mais improvável:
O tecido do coração

Era loucura, diriam
Mas de tudo eu já tinha lido
Acompanhado as tentativas inúteis
De renomados doutores
Falando de emoções, figuras,
metáforas, rimas, melodia,
verso, cadência, sonoridade
Mas nenhum deles perto
De salvar a humanidade

Eu sabia, tinha certeza
Que a vida da poesia
Do coração do autor dependia
Na mão, caneta e papel
No peito, os eletrodos
vi uma ideia virar teoria
Durante cada batida
E, a cada dia, ficar mais plausível
E fiz, então, a última investida

Quanto me encontraram
Ao lado das minhas anotações
Peito aberto, bisturi no chão
Não conseguiram entender
O que acontecia
Até que o livro de minha autoria
Ganhou vida na cabeça pura
Do primeiro desertor dessa estúpida academia
Que achou que poesia tinha cura